Tema:
Quando Deus parece ausente e os inimigos parecem próximos, a fé ousa clamar com honestidade—e ainda assim se apega ao Senhor que ouve e será louvado.
Tom:
Quebrantado.
Estrutura:
Do lamento penetrante ao louvor conquistado—uma descida para o sentimento de abandono, uma lembrança da fidelidade passada de Deus, petições urgentes por livramento e um horizonte ampliado onde o resgate se torna testemunho entre o povo de Deus e as nações.
O Clamor
O salmo começa com um choque de intimidade: o nome da aliança de Deus nos lábios, mas acompanhado da realidade sentida de distância. A oração não é contida nem polida; é urgente, implacável e atônita—“Por que?” fica ao lado de “Meu Deus.” O primeiro movimento ensina que o lamento não é abandonar Deus, mas levar a dor diretamente a ele.
A Reflexão
A dor se aprofunda quando o salmista nomeia tanto o colapso interior quanto a hostilidade externa. O escárnio fere tanto quanto o sofrimento: outros interpretam a aflição como rejeição divina, e suas zombarias tentam reescrever o caráter de Deus. Ainda assim o salmo recusa essa reescrita. No meio da humilhação, o cantor lembra: Deus agiu pelos antepassados; Deus foi fiel desde o ventre; a santidade de Deus não mudou mesmo quando sua proximidade não pode ser sentida.
As imagens são cruas—fraqueza como água derramada, ossos fora do lugar, força seca, cercado por inimigos predadores. Este é o lamento em alto volume: honesto sobre o que o terror faz ao corpo e o que a vergonha faz à alma. Ainda assim, um fio tênue, mas real, segura: o salmista continua orando ao mesmo que parece silencioso, insistindo que a fidelidade passada de Deus é razão para suplicar no presente.
A Determinação
O final não nega a escuridão; responde a ela com adoração conquistada a pulso. O livramento—se visto como princípio, promessa ou recebido de novo—move-se para o testemunho público: “Contarei.” O lamento torna-se um chamado para que os aflitos esperem, para que a comunidade louve e para que os confins da terra reconheçam o reinado do Senhor. A nota final é expansiva: o sofrimento não é a última palavra; a fidelidade de Deus será proclamada a gerações ainda por nascer. Mesmo aqui, a memória da angústia permanece—mas é reunida numa confiança maior de que Deus não abandona quem o invoca.
O Salmo 22 é assumido com particular clareza no sofrimento de Jesus. Na cruz, Cristo pronuncia seu grito de abertura, não como encenação, mas como verdadeira angústia humana oferecida ao Pai. As cenas do salmo de escárnio, angústia corporal e o repartir de vestes ecoam nos relatos da crucificação, mostrando que o lamento do sofredor justo encontra sua mais profunda encarnação no Justo.
Ainda assim, o salmo também aponta além da desolação da cruz para o seu fruto: a transformação do sofrimento em proclamação, o reunir de adoradores e o anúncio de que Deus reina. Em Cristo, o lamento não é minimizado; ele o carregou. E porque entrou no abandono por nós e foi vindicado, os crentes podem trazer seu próprio “por quê” à oração sem medo—confiando que Deus pode transformar o pranto honesto em louvor duradouro.
A frase “Meu Deus, meu Deus” usa o hebraico ’ēlî (אֵלִי), uma forma possessiva que significa “meu Deus”—uma palavra pequena que carrega imenso peso. Mesmo à beira do desespero, o salmista não fala de uma divindade distante, mas de um Deus ainda reivindicado em relação de aliança. O lamento aqui não é falta de fé; é pertencimento ferido.
“Pois não desprezou nem rejeitou a aflição do aflito, nem escondeu dele o rosto; antes, ouviu-o quando ele clamou.” — Salmo 22:24
Responda as perguntas abaixo. Ao escolher uma alternativa, você verá o resultado e uma explicação.
1. Qual movimento emocional descreve melhor como o salmo progride?
2. De acordo com o versículo-chave citado, o que Deus fez quando o aflito clamou a ele?